O desáin modernoso e sofisticado da embalagem de (um punhado) de queijo ralado olha pra você e, depois de abafar uma risada maliciosa profere:
– Você é um(a) idiota!

Mal é esvaziado, e depois de breve repouso perde-se para além da boca de lixo.

Odeio acordar cedo. Manhãs, para mim, são como madrugadas para os diurnais.

Ando pelo mato do Butantã, e me deparo com a vida (ou mais precisamente, morte) de então. Vejo rostos frios e conhecidos, como fantasmas, passando por mim. Apesar da temperatura amena, o raio de sol que incide no corredor faz transbordar o calor de memórias frias, repleto de morte e nada.
Nem lá, nem em mim, e em nenhum lugar, eu não pertencia.

Odeio manhãs.

20/01/2013

Estava a caminho de pegar o ônibus no terminal, e a mulher que andava à frente olhava de forma incessante para trás. Achei que o olhar era voltado para mim porque, sei lá, poderia ser que tinha um louva-a-deus gigante nas minhas costas esperando alguma oportunidade para me decapitar e eu não havia percebido, e ela parecida um tanto perturbada. Para variar, eu estava parcialmente desligada do mundo de fora, e a perturbação dela passou a ser minha também. Hesitei um pouco de querer me reconectar com o mundo, porque achei que não era nada de mais, até que resolvi olhar para trás. Um cara empurrava um carrinho de bebê, e tanto sua camisa quanto o objeto eram rosas. Qual é o problema de um cara querer combinar sua roupa com o carrinho, pensei. Finalmente, resolvi tirar o fone de ouvido. Era um louva-a-lúcifer que gritava SALVE LÚCIFER, DEMÔÔNIO, LÚCIFER. Entendi a perturbação da mulher. Desconfiei um pouco se o carrinho tinha alguém (apesar de que alguma brutalidade não justifica o fato de não ter nada).

Desci do ônibus, e algumas pessoas vinham em direção contrária a minha. Acabaram de sair da igreja, pensei. Era inevitável que nossos caminhos se cruzassem. “Jesus te ama!”, e fez algum gesto com a bíblia meio que direcionado a mim.

Virei a chave do portão. Tive alguma sensação de que os louvores mefistosos eram, de alguma forma, direcionados às minhas costas (mas, é claro, deveria ter sido mera paranoia, porque eram aquilo que se encontrava, de certa forma, mais perto dele).

Minha aura deve ser sinistra, concluí.

10/09/2013
Uma definição de loucura

– … e então o cara ficou meio louco.
– Não me lembro dessa parte.
– Ele quis se matar. Porque ficou preso ao próprio corpo.

Eu era a testemunha muda e silenciosa, presa a um escafandro, e querer algo para além disto era desejar por um milagre mitológico e messiânico. Por isto ninguém nunca irá jamais saber de meu relato.

Seu tempo era dividido, essencialmente, entre escola e quarto, apenas. Desde que fui parida, nunca vi ninguém de mesma ou idade próxima a sua. Mas se sempre foi assim não sei e nem saberei dizer, só posso analisar e julgar aquilo que, de fato, presenciei.

(…)

Pegava livros que pareciam ser muito antigos sobre animais em extinção, talvez de algum outro lugar esquecido da casa, e parecia se admirar com a ilustração e aquilo que ela passou a conhecer. Depois, se deitava e sonhava olhando para o teto. A ruminação prosseguia horas e horas. Ela podia, ao menos, pertencer, mesmo que por um breve período, à pequena reunião de bichos.

Acordou cedo hoje. Frescor matutino, brisa e árvores fez lembrar, sem querer, de crisântemos e uma lápide de três gerações. Crisântemo só pode ser flor de morte.

                                                                                              

Ela não deixou de sentir certa lástima, um pinicão no coração, ao ver a reação dos pais ao descobrirem um morro de roupa suja largado em um canto do seu quarto. Ela, então, resolveu dar um jeito de fazer o morro desaparecer enquanto eles, provavelmente, ficaram ruminando aquilo por um bom tempo no canto deles.

                                                                                               

Até agora pouco, Rosa acreditava, piamente, que fora descoberta como um anjo do céu, que madurou e caiu para alguém. Uma flor mirrada qualquer escondida e perdida mas finalmente descoberta em qualquer canto de estrada. Apesar de ter se libertado de seu raptor, ela não pode deixar de sentir angústia e dor de ter se separado para sempre dele. Mas tudo não passava de farsa disfarçada de poema. Coitada de Rosa. Finalmente descobriu que ele não passava de um pinto disfarçado de galinha.

Conto escrito a quase um ano atrás (12-06-2012), para a disciplina de Literatura Japonesa VII. Sinto certo rubor em mostrar isto assim, a esmo, para qualquer um lê-lo,  visto a carga pessoal contida nele, mas enfim, talvez seja uma forma de me posicionar quanto pessoa em relação ao mundo, deixar alguma marca de que passei por aqui, sei lá (porque sentir e querer o contrário é horrível,  mas enfim, se você leu ou não acho que tanto faz para mim).

Talvez tenha falhado em tentar expressar isto como algo para ser percebido de forma diluída, porque tenho certeza de que quem o lê-lo achará que se trata de uma pessoa que viveu, literalmente, como um eremita citadino enclausurado por anos.

Os sentimentos suscitados neste texto são verdadeiros.

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Este quadro expressionista é, precisamente, aquele quarto. Só posso contar aquilo que vejo nele, portanto fatos de mesma época que não estão no quadro serão totalmente desconsiderados. Na verdade era meu quarto porque assim ele me foi designado por outros, gostando ou não. Talvez tenha passado a gostar dele por força do hábito, e mesmo que não gostasse não tinha escapatória: era a única opção disponível. Síndrome de Estocolmo. Mas, pensando melhor, este quarto, que era meu, poderia ser de qualquer um.

Na verdade, eu me sentia seguro lá. Era também um lugar confortável, onde todas as coisas que julgavam ser necessárias para mim se concentravam neste quarto. Ou talvez porque tudo isto foi dito a mim que pensava ser um lugar assim. Fora o que auxiliava o alívio de necessidades básicas, para a minha diversão possuía brinquedos espalhados pelo chão. Carrinhos, robôs e peças de lego, e o meu vídeo game. Havia uma televisão no quarto também. A concepção que tinha de felicidade se resumia, principalmente, a estes de pedaços de plástico e parafernália eletrônica. Mas pelo menos eles também eram elementos indispensáveis de algum repertório de universo infantil. Às vezes representavam tais e tais personagens, mas os brinquedos eram sempre personificados e manipulados somente por mim, tudo em meio a vários faz-de-conta de vidas breves.

Se se tratava de um quarto azul, branco ou verde, não importa, é totalmente irrelevante. Pelo quadro é possível perceber que era um quarto sem janelas. Era o que aparentava, porque na verdade elas estavam lá, só que permaneciam sempre fechadas e escondidas atrás de cortinas. Era ainda escuro, mas tudo que nele havia refletia certa iluminação do abajur televisivo que não calava a boca, o que reforçava os ares fastidiosos. Mesmo assim, neste ambiente não era possível distinguir o dia da noite, e todos os dias e todos os momentos pareciam sempre os mesmos. Tudo estático, estável, enfadonho e entorpecedor, mas reconfortante e seguro. E também de certa ilogicidade fria e silêncio ditatorial. Além da televisão, havia também outra luz que se irradiava para além de uma porta aberta.
Vejo que no quadro há um sofá, havia um sofá em meu quarto. E sei que quase sempre havia alguém sentado ou dormindo nele. Era uma pessoa adulta, mas não sei quem era porque sua face está envolta em trevas. Pensando bem, será que ela tinha rosto? Não só ela era parte integrante deste quarto, como também ela era o quarto. Proporcionava uma segurança reconfortante, a ponto de me fartar e enjoar de cuidados práticos que posteriormente se tornariam sufocantes. Como o quarto, porque afinal ela era ele, também era fria. Apesar de sua presença, não era sempre que ela estava lá: em momentos críticos sempre me via só no quarto de amordaçar, envolto sozinho em minhas coisas inertes.

Me lembro de que o tempo passava, crescia mas não mudava. As coisas do quarto eram ou acrescentadas ou substituídas por outras, os brinquedos e as parafernálias eletrônicas, apenas. Certo dia, caí na rede cibernética, e me dei conta de que existiam macrocosmos de infinitos microcosmos, e acordei. Comecei a perceber que havia uma claridade para além da porta aberta. Passei a me questionar, minha situação, este quarto, a porta aberta e o que havia para além dela. A concepção de mundo era, até então, aceitar o que me era dado. A segurança deixou de ter qualquer coisa de reconfortante, e passou a me estrangular. Precisava sair daquele quarto.

Decidi me aproximar da porta, mas ela era brutalmente fechada. Não me eram dadas razões lógicas, ou qualquer tipo de explicação. O silêncio do quarto permanecia, imperativo. A você não é permitido nenhum poder de questionar, aceite e agradeça por aquilo que lhe é dado. De início, minha indignação era interna, e não possuía pernas suficientemente fortes para sustentar qualquer defesa a meu favor, e qualquer tentativa se mostrava absolutamente ineficaz. A partir de então passei a realmente crescer, e em determinado momento resolvi enfrentar, de cara a cara, de adulto para adulto, o quarto.

– Viver não se resume a este quarto, e não sou obrigado a ter minha vida aqui dentro. Você sabia que existe algo chamado livre-arbítrio? Não sou obrigado a aceitar o que você me impõe, e minha existência não depende de você. Quero sair daqui. Independentemente de sua vontade, eu vou sair daqui.

Me aproximo da porta, e ela se mantém aberta. Nascemos e morremos sós. Solidão é inerente à nossa existência, por isto é preciso se acostumar. Atravesso a porta.